Financiamento da informação e independência editorial como alternativa

Rodrigo Faust e Viviane Abreu :: estudantes de jornalismo

É correto afirmar que os principais veículos jornalísticos, os que fazem parte dos grandes grupos de comunicação nacional, sempre detiveram o monopólio da informação. A mídia hegemônica fornece ao público diariamente, em todos os cantos do país, as notícias sobre os acontecimentos relevantes e ajuda a formar opinião. No imaginário popular e no jargão profissional dos jornalistas, os veículos noticiosos têm o poder de fiscalizar o Estado com neutralidade, objetividade e imparcialidade, termos bastante discutíveis no campo das teorias da comunicação e do jornalismo. 

Em contrapartida, em meados de 2013, durante as grandes manifestações populares que ocorreram em todo o Brasil, houve um crescimento das novas mídias alternativas e independentes. Algumas nasceram em meio a protestos e da necessidade de reportar e informar in loco os acontecimentos, não apenas como observador, mas como participante ativo. Foi uma espécie de resposta ao monopólio da informação dos grandes conglomerados de comunicação e à forma como estes abordam os temas cotidianos, especialmente no âmbito político. 

Mas o que torna uma mídia independente? Para responder a essa pergunta é necessário entender os critérios de independência. De forma bem objetiva, pode-se dizer que algo é independente quando age de forma autônoma, não é dependente e se mantém livre de qualquer influência. As mídias independentes se colocam como alternativa à mídia hegemônica por não estar sob o controle de grandes grupos, não receber apoio de anunciantes, grupos políticos ou instituições governamentais, portanto, uma alternativa aos meios tradicionais.

Pretendemos, aqui, fazer uma análise baseada em uma questão bastante simples, mas de resposta difícil e complexa. De alguma maneira os veículos independentes precisam se sustentar, mas como receber apoio financeiro sem que isso interfira na linha editorial? 

Alguns veículos independentes possuem em seus sites uma página específica para prestar contas de onde vem o apoio financeiro e qual é sua linha editorial. Para compor a análise, dados de  quatro portais independentes foram levantados. Esses veículos foram escolhidos por sua relevância, repercussão e notoriedade. Levando em consideração a página de transparência, pode-se notar semelhança entre elas, bem como alguns quesitos que as distinguem.

O portal Mídia Ninja possui uma página de perguntas frequentes na qual descreve detalhadamente como funciona. Primeiramente, o coletivo defende o exercício jornalístico como ativista. A imparcialidade é questionada. O coletivo Mídia Ninja defende a parcialidade e argumenta que nenhuma construção humana é capaz de ser imparcial. A parcialidade defendida pelo portal está ligada à transparência de seus posicionamentos e à defesa de suas causas como pauta.

De acordo com as informações públicas, o Mídia Ninja não é bancado por recursos públicos e não recebe apoio de partidos políticos, ainda que defenda o “diálogo suprapartidário” em defesa de suas causas. No site há um link para um portal de crowdfunding e uma lista das pessoas que contribuem com os projetos de cobertura jornalística. O principal apoio financeiro vem da Fora de Eixo, uma rede colaborativa constituída de coletivos de cultura, em sua maioria composta por entidades sem fins lucrativos e com autonomia para captar recursos e fazer gestão de seus projetos. As entidades participam de editais de fomento públicos e privados e organizam diferentes formas de captação de recursos para financiamento próprio. Quanto à autoria coletiva, o portal dá total liberdade para seus colaboradores escolherem a forma de assinar seus trabalhos. Apesar disso, a maior parte dos participantes opta por assinar como Mídia Ninja.

O portal de mídia independente Jornalistas Livres surgiu para cobrir as manifestações de 2015 como alternativa à grande mídia. Dentro do portal não foi encontrada a página de transparência, apenas a que trata de “Quem Somos” e um vídeo institucional sobre o trabalho que realizam. De acordo com o vídeo, os Jornalistas Livres não recebem apoio financeiro partidário nem empresarial. Através de crowdfunding (financiamento coletivo) têm buscado recursos para consolidar o projeto. No site, o coletivo expressa seu posicionamento ideológico, deixando claro que a rede é parcial às causas que defendem. O coletivo é formado por profissionais de jornalismo que, voluntariamente produzem e assinam as matérias que publicam. 

A Agência Pública é talvez uma das mais antigas representantes da nova mídia independente no Brasil. Criado em 2011 por jornalistas mulheres, o portal surgiu com objetivo de realizar jornalismo investigativo e reportagens especiais. Sob a licença de Criative Commons, as reportagens da Pública já foram republicadas por diversos veículos. Na página de transparência do site estão especificados os tipos de apoio financeiro. Doações de fundações privadas nacionais e internacionais, patrocínios, editais e crowdfunding são algumas delas. As matérias e projetos possuem assinatura dos colaboradores, exceto em alguns casos em que os textos são assinados pela redação.

Na página de transparência, a Agência Pública mostra os recursos obtidos em 2018 e como foram aplicados. A receita total no ano passado foi de R$ 3.675.760,69, com 78,06% desse valor aplicado em recursos humanos para a produção dos conteúdos. De acordo com o site, 71,31% do financiamento foi obtido de instituições como a Fundação Ford e outras organizações de apoio a projetos em diferentes áreas de atuação. Um dos projetos capitaneados pela Agência Pública é o Mapa de Jornalismo Independente, levantamento inédito de veículos que produzem informação jornalística fora do esfera midiática tradicional.

Já o Centro de Mídia Independente é uma rede internacional de produtoras e produtores independentes e aberta a quaisquer movimentos sociais e políticos que estejam sintonizados com o objetivo de “construir uma sociedade livre, igualitária, justa e solidária”. O centro não aceita financiamento de organizações e as matérias são assinadas pela redação. Mesmo passando por uma triagem de revisão, não é possível saber quem as escreveu. O CMI não se responsabiliza pelo conteúdo publicado pelos coletivos ou indivíduos que contribuem com o projeto de qualificar as informações sobre o cotidiano no país. Qualquer pessoa pode se voluntariar para escrever matérias, contanto que esteja ciente da política editorial da rede e de acordo com ela. 

O que se pode concluir ao analisar esses quatro exemplos é que, mesmo que o jornalismo independente esteja em ascensão, o financiamento ainda é uma questão problemática para quem se dispõe a fazer esse tipo de trabalho. A contribuição da audiência, que sai da esfera de mero consumidor e assume papel de financiador ou mesmo de produtor,  ainda não consegue suprir totalmente as demandas por informação de qualidade. Nota-se que existe um esforço para garantir transparência, mas o termo “independente” ainda reserva algumas ressalvas no que diz respeito ao compromisso com a liberdade de expressão. Em termos gerais, os portais analisados mostram-se mais como alternativa à chamada grande mídia e voltam seus esforços para financiar uma proposta de independência à grande indústria midiática no Brasil, que mantém a hegemonia de pontos de vista sobre a realidade social.

Análise produzida como parte da unidade de aprendizagem Mídia: Tecnologia e Poder - 2019/1

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